Um Novo Come&ccedil;o
Quando meus amigos souberam que estava indo para o Golfo, fui inundado com avisos.&nbsp;  Disseram que n&atilde;o teria nada para fazer na Ar&aacute;bia Saudita e me sentiria  restrito.&nbsp; Fui avisado que poderia ser enganado e tratado como um  escravo.&nbsp; A cultura n&atilde;o era produtiva e eu choraria de t&eacute;dio.&nbsp;  Entretanto, sabia que era minha sa&iacute;da e, como sempre fa&ccedil;o quando vou  para um lugar ou cultura diferente do meu, tentei abandonar meus  preconceitos culturais e planejei testar a sociedade da qual faria parte  por seus m&eacute;ritos.&nbsp;

Fui  agradavelmente surpreendido na chegada ao notar a amabilidade geral que  recebi dos sauditas.&nbsp; Ao inv&eacute;s da dist&acirc;ncia arrogante, &eacute;tica  question&aacute;vel e honra sens&iacute;vel que esperava, fui saudado com afabilidade,  curiosidade e portas abertas.&nbsp; Meus h&oacute;spedes  fizeram de tudo para me agradar, um estranho em sua terra.&nbsp; N&atilde;o que n&atilde;o  tenha encontrado uma parcela justa de hipocrisia.&nbsp; Os estrangeiros do  Paquist&atilde;o, Bangladesh e outros pa&iacute;ses do Extremo Oriente eram seriamente  explorados e tratados injustamente, aos meus olhos, pela maioria  &aacute;rabe.&nbsp; Mas n&atilde;o vi nenhuma dessas condescend&ecirc;ncias quando aplicaram sua  sociedade a mim.&nbsp; Entretanto, n&atilde;o foi sua cultura ou sociedade que me  atra&iacute;ram ao Isl&atilde;.&nbsp; De fato, se fosse julgar o Isl&atilde; pela cultura, teria  ido na dire&ccedil;&atilde;o oposta, acho.&nbsp; Foi outra coisa.

A Motiva&ccedil;&atilde;o
O  &iacute;mpeto ou catalisador que me modificou de vagamente religioso a  totalmente submisso a Deus come&ccedil;ou com um evento aparentemente in&oacute;cuo.&nbsp;  Ao descer em solo saudita cedo pela manh&atilde; pela segunda vez (em 24 horas)  no Aeroporto Ha&rsquo;il, um aer&oacute;dromo pequeno e provinciano, ao inv&eacute;s de um  terminal de passageiros plenamente equipado, fui confrontado com uma  grande placa verde com as palavras "Escrit&oacute;rio de Orienta&ccedil;&atilde;o e  Propaga&ccedil;&atilde;o Isl&acirc;mica Ha&rsquo;il", seguido de um n&uacute;mero de telefone em ingl&ecirc;s.&nbsp; Lembro-me de ter ficado surpreso que a placa estivesse em ingl&ecirc;s, mas n&atilde;o prestei muita aten&ccedil;&atilde;o.

A  picape da universidade chegou e me levou a universidade, onde meu  passaporte foi checado e preenchi um formul&aacute;rio de chegada.&nbsp; Ent&atilde;o fui  enviado para o chefe do departamento de Ingl&ecirc;s.&nbsp;  Quando entrei no escrit&oacute;rio dele, fui confrontado com um homem em  vestimentas sauditas.&nbsp; Mas n&atilde;o parecia um &aacute;rabe, para meu olho n&atilde;o  treinado.&nbsp; Ele deve ter se sentido um pouco desconfort&aacute;vel por eu estar  olhando fixo para ele, tentando entender suas origens, mas ele lidou bem  com a situa&ccedil;&atilde;o.&nbsp; Mais tarde descobri que ele era brit&acirc;nico e tinha se  convertido em Brunei, antes de vir para a Ar&aacute;bia Saudita.&nbsp; Disse-me que  eu tinha o resto da semana para me acomodar, o que significava que tinha  cinco dias antes de come&ccedil;ar oficialmente a ensinar.&nbsp; Fui enviado de  volta para o homem encarregado da recep&ccedil;&atilde;o de pessoal e alojamento, que  me levou na picape para escolher meu espa&ccedil;o.&nbsp; Logo que me acomodei,  constatei que n&atilde;o tinha nada para fazer e quatro dias pela frente.&nbsp;  Ent&atilde;o, com a mem&oacute;ria da apar&ecirc;ncia estranha do "n&atilde;o saudita" ainda em  minha mente, lembrei da placa em ingl&ecirc;s e comecei a pensar na religi&atilde;o  do pa&iacute;s.&nbsp;
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Agora sabia que a B&iacute;blia[1] e o Tor&aacute;[2] eram parte dela.&nbsp; Tinha lido alguns dos livros dos hindus, o Bhagwad Gita[3], e tamb&eacute;m li livros pr&aacute;ticos de outras teorias religiosas e n&atilde;o religiosas sobre religi&atilde;o.&nbsp; Entretanto, nunca tinha lido o Talmude[4] e nem qualquer dos livros dos mu&ccedil;ulmanos, que sabia que chamavam de Alcor&atilde;o[5].&nbsp; De alguma forma tinha sempre tido a impress&atilde;o que esses dois livros estavam "fora do alcance" de n&atilde;o judeus e n&atilde;o mu&ccedil;ulmanos.&nbsp;  E tinha pensado que eram exclusivamente em idiomas semitas, que n&atilde;o  conhecia.&nbsp; Entretanto, a placa em ingl&ecirc;s me fez pensar que talvez  pudesse encontrar uma tradu&ccedil;&atilde;o em ingl&ecirc;s do Alcor&atilde;o em &aacute;rabe no  instituto.&nbsp; Talvez fosse uma oportunidade de l&ecirc;-lo e julgar a fonte da  religi&atilde;o por mim mesmo.
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Imediatamente  parti para o centro da cidade para procurar o local.&nbsp; O centro de Ha&rsquo;il  tinha um bloco de escrit&oacute;rios de seis andares que chamavam de Al-Bourj, que significa "a torre", o &uacute;nico edif&iacute;cio alto na cidade.&nbsp;  A estrada que caminhei passava logo atr&aacute;s dele, &agrave; esquerda, terminando  no shopping.&nbsp; Do lado direito do lado oposto da estrada o bourj era o mercado de legumes, que depois vim a saber tamb&eacute;m servia como local de execu&ccedil;&atilde;o.&nbsp; Onde minha estrada e a via principal se cruzavam no bourj, encontrei a mesma placa que tinha visto no aeroporto.&nbsp;&nbsp;  Estava convenientemente escrita em uma placa de sinaliza&ccedil;&atilde;o que  apontava na dire&ccedil;&atilde;o diagonal do outro lado da rua, mas olhando para as  fachadas das lojas, todas em letras &aacute;rabes que era incapaz de ler, n&atilde;o  consegui identificar o local.&nbsp; As lojas estavam todas fechadas por ser  de tarde e n&atilde;o pude fazer perguntas.&nbsp; N&atilde;o tinha ideia de quando as lojas  abririam novamente e decidi ir para meu novo lar, comprar alguns  suprimentos, descansar e tentar novamente pela manh&atilde;.&nbsp;
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O  dia seguinte era ter&ccedil;a-feira e fui novamente para a cidade assim que  tomei o caf&eacute; da manh&atilde;.&nbsp; No caminho passei por v&aacute;rias livrarias e ciente  de como tinha sido dif&iacute;cil achar o escrit&oacute;rio de propaga&ccedil;&atilde;o, parei em  todas.&nbsp; Nenhuma delas tinha livros em ingl&ecirc;s, muito menos o Alcor&atilde;o e, tanto quanto pude entender, me direcionaram para o bourj.&nbsp;  Dessa vez fiquei logo abaixo da placa e esperei at&eacute; que um policial  viesse na motocicleta.&nbsp; Quando ele passou do outro lado da estrada,  acenei para ele como um louco.&nbsp; Ele cruzou a estrada e parou sua  motocicleta no come&ccedil;o do mercado de legumes.&nbsp; Eu o chamei e usando  gestos consegui transmitir o que queria saber.&nbsp; Ele apontou para o outro  lado da estrada e, quando ainda assim n&atilde;o conseguia ver, para o telhado  de uma casa onde havia uma c&oacute;pia da placa que tinha visto no  aeroporto.&nbsp; Como me senti est&uacute;pido.&nbsp; Fixei meus olhos nas placas acima  das fachadas das lojas e o lugar estava bem na minha cara! Finalmente  encontrei meu alvo e fui para as lojas abaixo dele, encontrando uma  livraria cheia de pessoas de todo o sudeste da &Aacute;sia e Oceania.&nbsp;  Considerei que a livraria pertencesse ao centro.
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O Encontro
Como  disse antes, a livraria estava cheia de gente e os livros eram em  muitos idiomas diferentes, mas era muito t&iacute;mido para perguntar algo e  ser mal compreendido. N&atilde;o conseguia falar nenhuma daquelas l&iacute;nguas.&nbsp;  Olhando pelas prateleiras n&atilde;o vi edi&ccedil;&otilde;es volumosas e todos os t&iacute;tulos em  ingl&ecirc;s pareciam ser sobre Jesus ou explica&ccedil;&otilde;es de &aacute;reas religiosas  particulares.&nbsp; Notei que havia algumas escadas  nos fundos pr&oacute;ximo &agrave; caixa registradora da loja, levando ao pr&oacute;ximo  andar.&nbsp; O policial tinha me indicado que os escrit&oacute;rios do Centro de  Orienta&ccedil;&atilde;o eram no andar de cima e, ent&atilde;o, na vaga esperan&ccedil;a de que  pudesse encontrar uma sala de leitura ou algo assim, subi as escadas nos  fundos da livraria, sorrindo para as pessoas por estar consciente de  minhas limita&ccedil;&otilde;es com a l&iacute;ngua.
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No  topo das escadas havia uma enorme sala vazia que parecia uma sala de  reuni&atilde;o.&nbsp; Junto a ela encontrei uma sala que tinha uma mesa enorme em  seu centro e prateleiras em todo o redor, mas apenas pouqu&iacute;ssimos livros  desgastados - talvez aquela sala de leitura pela qual tinha ansiado.&nbsp;  Infelizmente os livros eram todos em idiomas estrangeiros - letras  estrangeiras que n&atilde;o conseguia ler.&nbsp; Comecei a me desesperar em  encontrar algo que queria por conta pr&oacute;pria ou obter o que queria em uma  terra que n&atilde;o falava minha l&iacute;ngua.&nbsp;&nbsp; Felizmente um dos funcion&aacute;rios do  escrit&oacute;rio me perguntou o que eu queria ou que estava fazendo l&aacute;, ou  algo dessa natureza (ele falou em seu idioma, que n&atilde;o pude entender).&nbsp;  Respondi em ingl&ecirc;s, dizendo que estava procurando por uma c&oacute;pia do  Alcor&atilde;o para ler.&nbsp; Ele indicou que eu devia esperar, porque traria  algu&eacute;m.&nbsp; Ent&atilde;o, esperei. Talvez uma solu&ccedil;&atilde;o estivesse a caminho.

Um  homem alto e de barba entrou na sala em que eu aguardava.&nbsp; Passei a  conhec&ecirc;-lo depois como irm&atilde;o Abu Abdurrahman, meu professor e mentor,  mas na &eacute;poca, era apenas outro "saudita" que podia ser capaz de me ajudar a obter o  que queria.&nbsp; Perguntou-me em ingl&ecirc;s o que eu queria e disse a ele que  queria ler o Alcor&atilde;o.
"Por que voc&ecirc; quer fazer isso?", me perguntou ele.
"Quero compar&aacute;-lo com a B&iacute;blia." Respondi.
"Por qu&ecirc;?"
"Voc&ecirc; sabe, ver se &eacute; parecido."
"Voc&ecirc; quer conhecer o Isl&atilde;?"
"Bem, sim, suponho."
"Por que n&atilde;o l&ecirc; esse panfleto?"  Disse ele, me mostrando um panfleto que dizia "Quem &eacute; Deus?" N&atilde;o queria  saber a vis&atilde;o isl&acirc;mica de teologia ou religi&atilde;o.&nbsp; N&atilde;o era atr&aacute;s disso  que estava.&nbsp; Queria olhar a escritura, compar&aacute;-la com o que estava na  B&iacute;blia.
"N&atilde;o. Mas quero de fato ler sobre o Isl&atilde;. Quero o livro," disse.
"S&eacute;rio? &Eacute; melhor se ler mais sobre a religi&atilde;o antes", insistiu.
"N&atilde;o estou interessado na religi&atilde;o em si" disse, tentando n&atilde;o ofender. "S&oacute; quero ler o livro."
"O livro n&atilde;o &eacute; um jogo", disse ele.
"N&atilde;o estou jogando", disse.&nbsp; "Estou seriamente interessado no que ele diz."
"Ok. Verei o que posso fazer", disse ele, concordando.&nbsp; Agradeci e ele saiu da sala.&nbsp;
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 Notas de rodap&eacute;: 

[1] http://quod.lib.umich.edu/r/rsv/about.html


[2] http://bible.ort.org/intro1.asp?lang=1


[3] http://www.bhagavad-gita.us/


[4] http://www.sacred-texts.com/jud/talmud.htm


[5] http://quran.com/

